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escrevivência...

Escrever para sobreviver, um blog que surge em período de quarentena e que convida todos quantos gostem de escrever a participar, diariamente, em desafios de escrita criativa.

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Escrever para sobreviver, um blog que surge em período de quarentena e que convida todos quantos gostem de escrever a participar, diariamente, em desafios de escrita criativa.

Sab | 28.03.20

O sol nasceu, por Susana Silva

Aqui estou, deitado sobre este capim iluminado por um céu estrelado que admiro como se fosse a última vez. Talvez seja mesmo. A roupa encardida e ainda molhada colada ao corpo é o meu abrigo e a minha proteção nesta noite escura. A lua ausentou-se e permitiu um silêncio que consigo sentir, embora nos meus ouvidos este latejante zumbido que me faz temer até a leve brisa que faz dançar a mais fina erva. Inspiro profundamente e sinto o ar morno a entrar pelos meus pulmões o coração parece desacelerar e eu sinto-me em paz.

Que vida feliz que vivi. Vou sentir a tua falta Amália, e dos teus fados chorados. Leve vento entrega este beijo que te dou colando-o ao rosto da minha mãe, ela vai saber.

A manhã está para chegar e o meu destino prestes a mudar. Peço a Deus que tenha compaixão de mim, antes a morte que a captura.

Lá vem ele, é o sol, porque não se demora? A noite que me protegia terminou, ouço já os passos que me procuram e sinto, encostado aos olhos, o cano que me ceifará.

O Sol nasceu e eu morri.

 

Susana Silva

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Sab | 28.03.20

O sol nasceu, por Mafalda Soares Pinho

O sol nasceu e consigo nasceu a esperança de um novo dia, trouxe uma nova luz, um novo alento e, quase, quase, também a alegria. As nuvens fugiram de um céu que espelha o brilho do teu olhar e os passarinhos cantam uma canção que não conheço mas que me parece familiar. Ao longe ouço crianças a rir e os passarinhos, que antes cantavam, agora voam, quando dou conta estou eu a sorrir e os sinos, mais longe do que as crianças, soam. No ar parece flutuar uma magia, como se as fadas regassem o mundo com o pó de perlim-pim-pim e vejo uma felicidade que contagia, que me envolve num abraço e que afirma que esta alegria vem de mim. Mas se vem de mim, onde fui eu buscá-la? Eu não sou alegre, sou triste, sem luz a iluminar. E se vem de mim, como fui eu encontrá-la? Tenho a certeza que foste tu quem a criou, quem causou este sorriso, quem me faz acreditar. E da minha janela vejo o sol que nasceu, que consigo trouxe o calor, eu não sei o que me deu, só sei que o meu coração respira amor.

 

Mafalda Soares Pinho

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Sab | 28.03.20

O sol nasceu, por Ana Rita Nápoles

E a cada nascer do Sol Apaixona-te… Apaixona-te pelos pássaros que cantam á tua Janela. Apaixona-te pelo vento que te despenteia. Apaixona-te pela chuva que cai no seu quintal. Apaixona-te pelas flores que nascem no teu jardim. Apaixona-te pelas nuvens que pairam sobre a tua cabeça. Apaixona-te porque sim. Apaixona-te por conversas que nada te dizem. Apaixona-te por pessoas que se sorriem, e, por aquelas que te fazem chorar. Apaixona-te por momentos únicos, e, por momentos que se repetem todos os dias. Apaixona-te por detalhes pequeninos. Apaixona-te por ti. Apaixona-te pela vida, e, por tudo o que ela te dá. Simplesmente Apaixona-te, e, o sol irá nascer novamente…

 

Ana Rita Nápoles

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Sex | 27.03.20

A dança das colheres, por Mafalda Soares Pinho

Quando abro esta gaveta tenho de fechar os olhos e respirar fundo... Bem fundo! Nunca percebi para que servem tantas colheres numa casa onde moram só e apenas duas pessoas, ou, melhor dizendo, uma pessoa e meia pois a pessoa sou eu e a meia é aquele que deveria estar a meu lado mas passa mais tempo fora do que em casa. Oh Deus! Eu só quero o raio de uma colher para mexer este café e tomá-lo enquanto está quente. Mas como vou eu encontrar uma colher no meio de tantas colheres que se amontoam por tamanhos e feitios? Colheres de sopa, de sobremesa, de chá, de café. Com o cabo fino ou com o cabo grosso, com feitios ou sem feitios. Não perco mais tempo! Faço aquilo que, penso, deveria ter feito há muito tempo. Tiro a gaveta fora e viro todo o seu conteúdo, dezenas de colheres, no chão. Mas quem é que tem uma gaveta só para as colheres? E o resto dos talheres? Certamente há uma gaveta que os resguarda a todos, juntos, separados das colheres. Quando todas as peças caem no chão, ouço um tilintar frenético que me entra pelos ouvidos e chega ao cérebro numa música quase impossível de ouvir. E elas espalham-se, como numa dança sincronizada que alguém inventou e que elas ensaiaram. Espalham-se num chão de mosaicos nada bonitos agora enfeitados por um quadro de inox e, assim, refletem a minha imagem que, incrédula, continua a pensar como encontrar uma colher para mexer o café.

 

Mafalda Soares Pinho

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Qui | 26.03.20

O abismo, por Susana Silva

Era um abismo de luz, mais brilhante que o sol e com uma dança de cores que nem o mais incrível arco-íris poderia reproduzir. Ela temia dar o passo em direção aquela centelha de esperança, amarrada por cordas fortes que lhe cortavam os pulsos que gotejavam sangue. Os seus pés colados a um solo árido onde nunca nada iria germinar e o seu corpo inerte e olhos lacrimejantes, admiravam tal possibilidade. Era um só o passo que tinha de dar, mas era como se de um buraco negro se tratasse e nesse instante tudo voltava à sua cabeça revivendo cada pesadelo outra e outra vez. E naquele horror conseguia encontrar-se e confortar-se com a única vida que conhecia, desdenhando de si própria e da sua busca pela felicidade.

Voltou para trás, afastando-se daquele abismo de luz.

Para quem tem medo até a esperança paralisa.

 

Susana Silva

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Qui | 26.03.20

Abismo, por Mafalda Soares Pinho

Percorri um caminho de terror na esperança de superar os meus medos e no fim poder descansar. Mas onde é o fim? Há demasiado tempo que me vejo abandonada, deitada ao relento de um abismo em que a queda é eterna. Tentei alcançar as nuvens e fazer dos anjos meus companheiros num céu de repouso. Mas onde fica o céu? Deixei de ter luz que me guie, que me diga qual o caminho que e leva de volta aos sonhos. O meu sol não brilha. Os meus olhos habituaram-se à escuridão que emana do meu coração estilhaçado por dores incuráveis… Infindáveis sofrimentos perdidos no fogo que me consome. Chamo pela vida nos dias calmos, quando a minha alma tem sossego para se recompor. Mas o que é feito da alma? Fragmentos de recordações que me despedaçam sem olhar às consequências. Rezo todas as noites, quando o silêncio da minha consciência se une nas orações que proclamo aos deuses infinitos. Mas de que me serve rezar? As palavras não são escutadas e ficam a levitar sobre mim prontas a cair em qualquer momento, como castigo. A minha lua não brilha. Os meus olhos habituaram-se às lágrimas que derramo num mar sem fundo, construído pelos desgostos que me ferem o espírito… Eternos tormentos perdidos na água onde me afogo. Deixo-me cair numa morte lenta. Vejo os meus sonhos serem queimados um por um e nada disso me entristece… Só quero que cabe depressa. As minhas estrelas são memórias obscuras dos meus próprios desejos. Os meus olhos habituaram-se à escuridão onde me perdi no tempo que não sei contar… Não sei se passaram anos, dias ou horas. Só sei que o relógio parou e que os ponteiros apontam para a palavra “angústia”. Tentei partir a porta que me separa da vida delicada e superficial que agora quero ter. Mas o que pode ser a vida? Nunca esquecerei a solidão que me envolve como que protecção ao mundo exterior, por isso não poderei viver. Quis abrir a janela e gritar o meu desespero para uma plateia de fantasmas espectadores que assistem à minha existência num triste espectáculo de horror. Mas vou gritar o quê? As palavras morrem na minha garganta e a minha voz transforma-se em suspiros que acompanham as lágrimas como banda sonora do que não sei dizer. O meu ar não é respirável. No meu peito mora um peso que não consigo aliviar. Dou mais um passo a caminho do abismo, na direcção de uma queda interminável. Quero voar; quero sentir-me leve, livre de desesperos. Quero flutuar; quero sentir-me leve, liberta de todos os tormentos. Quero abrir os braços e poder sentir o ar à minha volta enquanto caio… Vou caindo… Deixo-me cair! Mas os meus olhos habituaram-se a ver o nada que eu sou; os meus olhos vêm uma escuridão total. E eu permaneço num abismo de ideias sufocantes onde as palavras escritas reflectem tudo o que sempre quis dizer. 

Mafalda Soares Pinho

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