Estava tudo tão quieto, por Mafalda Soares Pinho
Estava tudo tão quieto, até o vento lá fora que tanto assobiava por aqueles dias, até a televisão que por tantas horas estivera ligada. Estava tudo tão quieto! Até os sinos da igreja que semanas a fio tinham tocado, estavam, então, calados. Naquela imensa calma que só servia para disfarçar o medo, só o meu coração ousava fazer barulho, sem receio que o ouvissem como grito aflitivo, destabilizador de um sossego tão mal realizado. Nas ruas ninguém passeava, todas as portas estavam fechadas, o ar tornara-se respirável sem ninguém para o respirar, as águas tornaram-se azuis sem ninguém para banhar, os braços tornaram-se livres sem ninguém para abraçar. Estava tudo tão quieto, excepto os pensamentos de terror, o medo que circulava num contágio constante sem ninguém que ficasse indiferente. Naquele imenso sossego, só o meu coração tivera coragem de fazer barulho, sem receio que o ouvissem gritar pelo teu nome, como um grito aflitivo, destabilizador, que só a tua presença poderia derrubar.
Mafalda Soares Pinho
